Será que veremos Leonard Cohen de novo?

O show já durava três horas e meia quando Leonard Cohen e banda terminaram a sequência matadora de “I’m Your Man”, “Hallelujah” e “Take This Waltz”.

As 15 mil e tantas pessoas que enchiam o Palacio de Deportes de Madri perderam o juízo: pais de família correram em direção ao palco, senhoras de aparência respeitável esqueceram os assentos marcados e partiram em direção ao homem. Muita gente chorava. Na nossa frente, três gerações – neta, mãe e avó – se abraçavam e gritava.  Beatlemania.

Leonard Cohen, com as mãos unidas num tradicional gesto de agradecimento budista, recolhia os buquês de flores, as caixas de bombons e os bilhetes que os fãs haviam jogado no palco. A cena tinha uma beleza quase religiosa.

O público todo ficou de pé e assim permaneceu enquanto a banda saía do palco e retornava para o primeiro bis. Trinta minutos depois, quando Cohen terminou de cantar a sexta música do bis, todos continuavam de pé, gritando.

Quatro horas de show. Trinta e três músicas. Uma maratona de emoção, inspiração e virtuosismo musical, comandada por um popstar de 78 anos. Nunca vi nada igual.

O concerto teve uma comovente sensação de despedida. Assim que entrou no palco, Cohen, vestido impecavelmente de terno e chapéu, disse: “Amigos, não sei quando voltaremos a nos encontrar. Por isso, vamos fazer dessa noite um momento especial. Vamos dar a vocês tudo que temos.”

E deram mesmo. Ao final do show, Cohen estava esgotado. Sua voz falhava. Em algumas canções, como “The Gipsy’s Wife”, “Coming Back to You” e “Alexandra Leaving”, ele nem cantou, limitando-se a admirar as cantoras. A plateia, percebendo seu esforço, o aplaudia ainda mais.

A banda de Cohen tem nove músicos, incluindo três cantoras e o extraordinário violonista catalão Javier Mas, que, sozinho, já valeria o ingresso.

Pessoalmente, achei alguns arranjos melodramáticos demais. Na turnê anterior, me incomodou o saxofonista, dessa vez substituído por um violinista, igualmente perturbador. Prefiro os arranjos minimalistas dos discos. Me incomodei também com a overdose de vocais de apoio.

Mas é compreensível que Cohen apele para arranjos mais “grandiosos”: afinal, ele está tocando toda noite para 15, 20 mil pessoas, não numa cabaré enfumaçado. A Leonard, tudo se perdoa.

A devoção dos fãs é impressionante. E mais ainda por se tratar de um artista que nunca fez nada de forma simplória ou acessível.

Música pop sempre foi sobre simplicidade, sobre dizer as coisas da forma mais simples e direta: “Eu te amo”, “Eu te odeio”, “Vamos farrear a noite toda”.

Mas Cohen sempre foi mais interessado na palavra do que na mensagem. Ele é um esteta, para quem cada sílaba, cada vírgula, cada pausa, tem mil sentidos e mil interpretações. Na música pop, só consigo pensar em Bob Dylan e Joni Mitchell como seus pares.

A seu modo, Leonard Cohen é um popstar. E sabe disso. No show, ele tirava os chapéus para as cantoras e ajoelhava ao lado dos músicos a cada solo. Sua voz, embora não tenha mais a potência de outros tempos, ainda consegue emocionar. Seu fraseado é perfeito, e a maneira como canta, ora sussurrando, ora narrando, é única e inimitável.

Como ele próprio diz em “Tower of Song”: “Eu nasci assim, não tive escolha / Eu fui abençoado com uma voz de ouro”.

O repertório foi irretocável. Clássicos como “Dance Me To The End of Love”, “Bird on a Wire” e “Suzanne” se misturaram a canções do ultimo disco e a raridades como “The Guests”, que ele não havia tocado nessa turnê.

Ao final, Cohen disse: “Espero, de coração, que possamos nos encontrar novamente”, antes de liderar a banda numa linda versão de “Save the Last Dance for Me”, do The Drifters. E 15 mil pessoas saíram atordoadas de beleza pela noite de Madri, pensando se aquele teria sido, de fato, o último encontro com Leonard Cohen.

 

Publicado em 15 de outubro de 2012 no blog “Uma confraria de tolos”, do site da Folha de São Paulo. Leia online aqui.