jan/2025

Como Bob Dylan mudou a vida de Kris Kristofferson

Por André Barcinski

Como Bob Dylan mudou a vida de Kris Kristofferson

Por André Barcinski

Com a correria do fim de ano, acabei não dando o merecido destaque à partida de um nome muito importante da música e cinema: Kris Kristofferson, que morreu em 28 de setembro, aos 88 anos, na residência dele no Havaí.

Gostaria de compensar essa falha indesculpável contando uma história sensacional ocorrida com Kristofferson em 1966 e que envolve Bob Dylan. Mas antes, algumas informações sobre a vida incrível de Kris Kristofferson…

O sujeito tinha múltiplos talentos: foi um dos compositores mais importantes do chamado “outlaw country” (“country fora-da-lei”) dos anos 70, formou o primeiro supergrupo do country, The Highwaymen, com outros caipiras rebeles como Johnny Cash, Waylon Jennings e Willie Nelson, teve músicas gravadas por Cash, Willie, Jerry Lee Lewis e Janis Joplin, atuou em grandes sucessos do cinema como “Nasce Uma Estrela”, com Barbra Streisand e, mais recentemente, em “Blade”, mas trabalhou também em filmes menores e alternativos de cineastas como Sam Peckinpah (“Comboio”, “Pat Garrett e Billy the Kid”), John Sayles (“Lone Star”) e Dennis Hopper (“The Last Movie”).

Além de tudo isso, era um intelectual de ponta e um atleta de primeira. Filho de um militar da Força Aérea, Kristofferson nasceu em 1936 e aos 16 ou 17 anos já escrevia ensaios literários para a prestigiosa revista “The Atlantic Monthly”. Na universidade Pomona College, onde se formou com honras em Literatura, destacou-se tanto em competições esportivas de atletismo, futebol americano e rúgbi que foi citado na revista “Sports Illustrated” como um dos grandes atletas universitários do país. Suas notas eram tão boas que ganhou uma bolsa para estudar Literatura na prestigiosa Universidade Oxford, na Inglaterra, onde fez parte das equipes de boxe e rúgbi. Também começou a escrever canções e gravou seu primeiro compacto, com o nome de Kris Carson.

Mas a vida acadêmica não interessava tanto a Kris Kristofferson. O que ele queria era conhecer o mundo. Trabalhou numa firma de escavação no Oceano Pacífico, foi piloto de helicóptero para uma petroleira, trabalhou de barman e construiu ferrovias. No início dos anos 1960, mudou-se para Nashville, capital da música country nos Estados Unidos, onde esperava ganhar a vida compondo músicas para outros intérpretes.

Mas as coisas não saíram como Kristofferson esperava e, em meados da década de 1960, ele estava numa situação financeira desesperadora e cogitando largar a música. Até que conseguiu um emprego de zelador no estúdio de gravação da CBS em Nashville. E é aí que os caminhos dele cruzam com os de Bob Dylan.

Enquanto Kristofferson varria o chão e limpava os banheiros do estúdio em Nashville, Dylan estava em Nova York com sua banda de apoio, The Hawks – que depois mudaria de nome para The Band – gravando seu sétimo disco de estúdio, “Blonde on Blonde”. Mas as sessões não iam bem, e Dylan terminou apenas uma canção que julgou digna de entrar no novo disco, “One of Us Must Know (Sooner or Later)”. O produtor Bob Johnston, que morava em Nashville e sabia da qualidade dos músicos de estúdio da cidade, sugeriu a Dylan gravar em Nashville com instrumentistas que costumavam trabalhar com música country. Para surpresa de muita gente, Dylan topou.

O bardo levou a Nashville apenas dois músicos que haviam participado das sessões em Nova York, o tecladista Al Kooper e o guitarrista Robbie Robertson. Bob Thompson completou a banda com um timaço de músicos de estúdio locais, como o baterista Kenny Buttrey, o gaitista e guitarrista Charlie McCoy e o baixista Joe South. E o local escolhido para a gravação foi justamente o estúdio da CBS em Nashville.

Kris Kristofferson trabalhava de madrugada limpando o lugar e viu Dylan compondo: “Ele ficava ao piano, sozinho, de óculos escuros, escrevendo suas músicas durante a noite inteira. Eu não tive coragem de chegar perto dele. Aquilo foi incrível: eu fui o único compositor de Nashville que estava presente nas sessões de ‘Blonde on Blonde’. Que honra”.

Kristofferson não conheceu Dylan naquela gravação, mas depois ficaram bem próximos – e atuaram juntos em “Pat Garret e Billy the Kid” (1973), de Sam Peckinpah. Mas observar Dylan compondo clássicos como “Sad Eyed Lady of the Lowlands” mexeu com a cabeça do jovem compositor, que percebeu que era possível fazer música popular com alto grau de sofisticação literária.

Em 1970, aos 34 anos de idade, Kris Kristofferson finalmente lançaria seu primeiro disco, que levava seu nome no título e trazia obras-primas como “Me and Bobby McGee”, “Sunday Mornin’ Comin’ Down”, “Help Me Make It Throught the Night” e “For the Good Times”.

Apesar de ser um imenso fã de Dylan, Kristofferson famosamente disse que desejava ter gravado em sua lápide os três primeiros versos de “Bird on a Wire”, música de outro ídolo, Leonard Cohen:

Like a bird on the wire / Like a drunk in a midnight choir /I have tried in my way to be free

Como um pássaro no fio / como um bêbado num coral da meia-noite / eu tentei, à minha maneira, ser livre.

Uma ótima semana a todas e todos.

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