fev/2022

“Casa Gucci” é tão ruim que merecia ser estudado

Por André Barcinski

“Casa Gucci” é tão ruim que merecia ser estudado

Por André Barcinski

“Casa Gucci” tinha tudo para ser um estouro: uma história shakespeariana de traição familiar, vingança e violência em um mundo de luxo e ostentação; um diretor consagrado (Ridley Scott) comandando um elenco estelar, com dois veteranos geniais (Al Pacino e Jeremy Irons), dois astros jovens respeitados pela crítica (Adam Driver e Jared Leto) e, no papel mais importante, uma popstar de fama mundial: Lady Gaga.

Mas havia algo de podre no reino dos Gucci, e o que parecia uma receita infalível transformou-se numa maçaroca intragável. “Casa Gucci” não é só um filme terrível, mas um exemplo perfeito de que, em arte, a soma de talentos nem sempre resulta em um trabalho de qualidade. É um filme que deveria ser estudado em cursos de cinema e roteiro, como referência do que não fazer.

São tantos os problemas que é difícil até decidir por onde começar. Mas comecemos pela origem de tudo: o roteiro. É inacreditável que um diretor que fez “Os Duelistas”, “Blade Runner” e “Alien” tenha aceitado dirigir um troço amadorístico desses. A estrutura do roteiro é primária. Acontecimentos se sucedem aos pulos, sem ligação entre eles e sem um fio condutor crível. Cenas não terminam, elas morrem de inanição.

Os diálogos são de novela mexicana: “Preciso ir antes da meia-noite, ou virarei um sapo”, diz o playboy mimado Maurizio Gucci, vivido por Adam Driver. “Não é um sapo, é uma abóbora”, responde a barraqueira Patrizia, interpretada, na falta de um verbo mais adequado, por Lady Gaga.

Numa cena antológica, Maurizio, apaixonado por Patrizia, confronta o pai (Jeremy Irons), um magnata caretão de novela das oito, para informar que pretende casar-se com a aproveitadora. O pai vê o que qualquer ser pensante com um olho bom perceberia em 30 segundos: que Patrizia só está atrás da grana dos Gucci: “Meu filho, trepe com ela, divirta-se com ela, só não case com ela!”. Mas Maurizio, tomado de paixão, se revolta: “Papai, eu amo Patrizia. Não estou interessado nos seus fantasmas, quero minha liberdade!” e, para mostrar “os fantasmas”, dá uma olhadinha de pavor para o teto da imensa sala. É de rolar no chão de rir. Pra piorar, Jeremy Irons tosse o tempo todo durante a cena, o que é sinal de que não chegará vivo ao final do filme.

Ver atores extraordinários como Pacino e Irons declamando diálogos de “Os Ricos Também Choram” só pode ser explicado por um motivo: estavam ganhando muita grana e não se importaram em passar algumas semanas flanando na Toscana e Nova York. Há uma cena entre os dois, no terraço de uma mansão, em que eles parecem estar num esquete cômico ironizando uma família mafiosa italiana.

Mas o auge do filme é mesmo a disputa de pior atuação, uma batalha violenta entre Lady Gaga e Jared Leto, este no papel de Paolo Gucci, um abobalhado herdeiro que passa o dia jogando squash, desenhando roupas pavorosas e imitando o sotaque da Mamma Bruschetta.

Veja o duelo desses dois monstros sagrados:

No fim, a vencedora é mesmo Lady Gaga e sua hilariante mania de terminar qualquer cena com um gesto que exacerba seu estado de espírito. Para demonstrar irritação, Gaga ergue a mão como se fosse bater no marido. Para simular desespero, segura a cabeça com as duas mãos. Já quando ameaça alguém, ela cerra os dentes, imitando uma fera. É engraçado demais.

Vendo a atuação de Lady Gaga, lembrei um famoso quadro do programa “Saturday Night Live” com a comediante Cheri Oteri, que certamente serviu de inspiração para o papel de Patrizia:

Um ótimo dia a todos.

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