“Casa Gucci” é tão ruim que merecia ser estudado
“Casa Gucci” tinha tudo para ser um estouro: uma história shakespeariana de traição familiar, vingança e violência em um mundo de luxo e ostentação; um diretor consagrado (Ridley Scott) comandando um elenco estelar, com dois veteranos geniais (Al Pacino e Jeremy Irons), dois astros jovens respeitados pela crítica (Adam Driver e Jared Leto) e, no papel mais importante, uma popstar de fama mundial: Lady Gaga.
Mas havia algo de podre no reino dos Gucci, e o que parecia uma receita infalível transformou-se numa maçaroca intragável. “Casa Gucci” não é só um filme terrível, mas um exemplo perfeito de que, em arte, a soma de talentos nem sempre resulta em um trabalho de qualidade. É um filme que deveria ser estudado em cursos de cinema e roteiro, como referência do que não fazer.
São tantos os problemas que é difícil até decidir por onde começar. Mas comecemos pela origem de tudo: o roteiro. É inacreditável que um diretor que fez “Os Duelistas”, “Blade Runner” e “Alien” tenha aceitado dirigir um troço amadorístico desses. A estrutura do roteiro é primária. Acontecimentos se sucedem aos pulos, sem ligação entre eles e sem um fio condutor crível. Cenas não terminam, elas morrem de inanição.
Os diálogos são de novela mexicana: “Preciso ir antes da meia-noite, ou virarei um sapo”, diz o playboy mimado Maurizio Gucci, vivido por Adam Driver. “Não é um sapo, é uma abóbora”, responde a barraqueira Patrizia, interpretada, na falta de um verbo mais adequado, por Lady Gaga.
Numa cena antológica, Maurizio, apaixonado por Patrizia, confronta o pai (Jeremy Irons), um magnata caretão de novela das oito, para informar que pretende casar-se com a aproveitadora. O pai vê o que qualquer ser pensante com um olho bom perceberia em 30 segundos: que Patrizia só está atrás da grana dos Gucci: “Meu filho, trepe com ela, divirta-se com ela, só não case com ela!”. Mas Maurizio, tomado de paixão, se revolta: “Papai, eu amo Patrizia. Não estou interessado nos seus fantasmas, quero minha liberdade!” e, para mostrar “os fantasmas”, dá uma olhadinha de pavor para o teto da imensa sala. É de rolar no chão de rir. Pra piorar, Jeremy Irons tosse o tempo todo durante a cena, o que é sinal de que não chegará vivo ao final do filme.
Ver atores extraordinários como Pacino e Irons declamando diálogos de “Os Ricos Também Choram” só pode ser explicado por um motivo: estavam ganhando muita grana e não se importaram em passar algumas semanas flanando na Toscana e Nova York. Há uma cena entre os dois, no terraço de uma mansão, em que eles parecem estar num esquete cômico ironizando uma família mafiosa italiana.
Mas o auge do filme é mesmo a disputa de pior atuação, uma batalha violenta entre Lady Gaga e Jared Leto, este no papel de Paolo Gucci, um abobalhado herdeiro que passa o dia jogando squash, desenhando roupas pavorosas e imitando o sotaque da Mamma Bruschetta.
Veja o duelo desses dois monstros sagrados:
No fim, a vencedora é mesmo Lady Gaga e sua hilariante mania de terminar qualquer cena com um gesto que exacerba seu estado de espírito. Para demonstrar irritação, Gaga ergue a mão como se fosse bater no marido. Para simular desespero, segura a cabeça com as duas mãos. Já quando ameaça alguém, ela cerra os dentes, imitando uma fera. É engraçado demais.
Vendo a atuação de Lady Gaga, lembrei um famoso quadro do programa “Saturday Night Live” com a comediante Cheri Oteri, que certamente serviu de inspiração para o papel de Patrizia:
Um ótimo dia a todos.
20 comentários em "“Casa Gucci” é tão ruim que merecia ser estudado"
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Não sei quem mentiu pra Lady Gaga que ela sabe atuar… mas o pior é que ela acredita na mentira!!!
Nao eh la grandes coisas, mas digamos que tb seja uma boa “aula”. Rs
Jack Nicholson é o melhor exemplo que me vem a mente. Brad Pitty, talvez??? Russel Crowe um pouco menos…
André, se o Oscar, que estaria doido para surfar na popularidade da Lady Gaga e com muita boa vontade de indicá-la, fez isso, imagino que o filme deva ser uma bomba atômica, mas perigosa que o Exército russo invadindo a Ucrânia!!!!
Obrigado, acho que não li essa crítica.
O filme parece que vai empilhar Oscars esse ano…
Esse eu sabia que era bomba pq li muita gente detonando. Mas agora com vc comentando, confesso que ate deu vontade de assistir. Afinal, aula eh aula!
O Ridley Scott ja tinha dado uma derrapada no ultimo filme, o Last Duel, que seria ate interessante se nao fosse a edicao calamitosa que fez com que o filme engordasse uns 40 minutos.
Não vi esse anterior do Scott. Vale?
Essa cena do Jared Leto com a Lady Gaga é mais Hermes e Renato que qualquer quadro do Hermes e Renato
Fato.
Então, estamos juntos! Não consegui terminar também hahahaah
Pô Barça, assim deu até vontade de assistir! Horas Bolas…
Não assisti por falta de interesse. Após seu comentário, vou ver como comédia, prestando atenção nos detalhes . Acho que será divertido.
Achei que seria uma bomba e não assisti. Depois dessa crítica, tenho certeza que preciso ver para poder dar umas gargalhadas.
Barça, aproveitando o Adam Driver, você assistiu ao musical Annette, que conta com trilha da banda Sparks? Curioso por sua opinião.
Cara, não escrevi sobre “Annette” porque só aguentei ver uns 15 minutos, achei insuportável.
E o Ataque dos Cães?
( pior tradução de título de filme da história do mundo)
Gostou Barça?
Escrevi sobre o filme aqui no site, em 10/12.
Verdade, mas o Al Pacino já tinha decepcionado em um policial que ele junto com o De Niro. Não “fogo contra fogo”, um outro chamado “duas faces da Lei”. Mas arrisco 2: Tom Hanks e denzel washington. abraço.
É, se até o Oscar ignorou a “performance” da Lady Gaga, significa que esse filme é uma bomba atômica de ruindade…
Ótima resenha Xará. Como sugestão, poderia escrever qualquer hora dessa, sobre atores e atrizes que sempre acertam em suas escolhas, participando de ótimos filmes. Seria possível uma lista assim rsrs Abração
Coisa rara hoje em dia. Olha o Al Pacino aí…