nov/2024

Crítica: “Sonny Boy”, de Al Pacino

Por André Barcinski

Crítica: “Sonny Boy”, de Al Pacino

Por André Barcinski

Autobiografia é uma coisa complicada. Nem todo grande artista ou personalidade é um bom editor da própria história. Muitas vezes, o que pode parecer interessante para o biografado perde força quando impresso na página.

Algumas autobiografias funcionam, especialmente quando o personagem recebe ajuda valiosa de algum(a) autor(a). Gostei bastante dos livros de Bruce Springsteen, Werner Herzog, Nile Rodgers e Ozzy Osbourne. Já os volumes sobre Rita Lee e André Midani frustraram minhas altas expectativas.

“Sonny Boy”, autobiografia de Al Pacino, ficou no meio desses dois grupos. O livro acaba de sair em português. É uma leitura agradável e com boas histórias, mas fica aquém do que se espera da trajetória de um dos maiores atores da história do cinema. Estamos falando, afinal, de um sujeito que fez pelo menos sete grandes obras do cinema – “O Poderoso Chefão”, “Serpico”, “O Poderoso Chefão 2”, “Um Dia de Cão”, “Scarface”, “Carlito’s Way” e “Fogo Contra Fogo” – além de outros filmaços como “O Informante”, “Espantalho”, “Os Viciados” e “O Sucesso a Qualquer Preço”. Isso sem contar a incrível carreira de Pacino no teatro e televisão.

Não espere grandes revelações ou incríveis histórias de bastidores sobre Hollywood e os filmes que ele fez. Pacino é capaz de passar batido por “Carlito’s Way” (a única informação sobre o filme é a de que ele saiu diretamente da cerimônia do Oscar, quando ganhou por “Perfume de Mulher”, para filmar com Brian De Palma). Não há UMA LINHA sobre o trabalho com Sean Penn e Penelope Ann Miller.

Filmes clássicos e que renderiam livros inteiros, como “Scarface”, merecem pouco espaço e nenhuma informação que qualquer pessoa bem informada já não tivesse (para não ser injusto, Pacino conta como queimou a mão na metralhadora de Tony Montana, o que deu a De Palma mais tempo pra filmar, sem Tony, o tiroteio final).

A melhor parte do livro é o início, quando o ator relata sua infância e a vida difícil no sul do Bronx, em Nova York, com o pai ausente e a mãe com sérios problemas de depressão. O menino faz amizade com gangues barra pesada – a maioria dos amigos morre de droga ou tiro – e encontra no teatro e cinema válvulas de escape para as frustrações. É bonito o trecho em que ele recorda o momento EXATO, no meio de uma peça, em que as palavras do texto saíram de sua boca e ele descobriu, como por encanto, que podia se metamorfosear no personagem que escolhesse.

Pacino era um beatnik, uma alma livre que não se importava com nada a não ser o teatro. Dormia no sofá de amigos e chegou a trabalhar de zelador num prédio em Nova York, morando num cubículo, só para custear aulas de interpretação. Era office boy quando conheceu outro fanático pelo drama, um tal de John Cazale, com quem dividiu vários palcos em produções furrecas até explodirem, os dois, em “O Poderoso Chefão”.

Algumas das poucas histórias realmente interessantes de filmagens vêm desse trabalho. Pacino conta como ia ser despedido do elenco pelo estúdio Paramount, que não estava impressionado com as cenas que havia visto de Michael Corleone, e foi salvo por Coppola, que mudou a ordem das filmagens de certas cenas só para poder mostrar ao estúdio a antológica cena no restaurante em que Michael mata o mafioso Solozzo (Al Lettieri) e o corrupto chefe de polícia McCluskey (o extraordinário Steling Hayden). Pacino conta, emocionado, como recebeu ajuda de Lettieri e Hayden e lembra que estava tão nervoso na filmagem que, ao saltar no carro em movimento depois do crime, errou o cálculo e se estabacou no asfalto, machucando feio o quadril.

Aqui e ali, dá para pescar informações muito interessantes no livro – a admiração que Pacino e De Niro tinham por Dustin Hoffman, que havia estourado antes dos dois com “A Primeira Noite de um Homem” (1967) e “Perdidos na Noite” (1969) e o impacto que a chegada desses três atores causou no então emergente cinema da Nova Hollywood. Havia algo de novo acontecendo, e isso assustou o pessoal da velha geração, conta De Niro.

Algumas informações foram novidade para mim: Sidney Lumet iria dirigir “Scarface”, mas foi despedido pelo produtor Martin Bregman, que preferiu a versão mais kitsch e exagerada de Brian De Palma; De Niro queria Pacino para atuar com ele em “1900”, de Bernardo Bertolucci, mas Pacino odiou o roteiro e recusou por “não conseguir entender meu personagem”.

Enfim, “Sonny Boy” não é o livro biográfico que Al Pacino merece, mas vale a leitura.

Um ótimo dia a todas e todos.

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