mar/2025

“O Brutalista”: o Oscar melhorou!

Por André Barcinski

“O Brutalista”: o Oscar melhorou!

Por André Barcinski

O Oscar de 2025 significou uma mudança drástica em Hollywood: foi o ano em que o cinema comercial desceu a níveis tão baixos de criatividade e ousadia que não restou à Academia outra opção senão escolher filmes independentes e de baixo orçamento. O resultado, para quem ama o cinema, foi excelente: há muitos anos não havia uma seleção tão boa de filmes.

Dos dez títulos indicados ao prêmio de melhor filme, apenas dois – “Duna 2” e “Wicked” – tiveram orçamentos superiores a 100 milhões de dólares. Os dois filmes que dividiram os prêmios principais, “Anora” e “O Brutalista”, custaram, respectivamente, seis e dez milhões de dólares, uma mixaria.

Goste ou não de “Anora” – e eu adorei o filme, como escrevi aqui – é inegável que ele represente um cinema autoral e ousado. Assim como “O Brutalista” que, para mim, foi o filme do ano.

Um épico intimista (sim, é possível!) de 215 minutos, exibido com um intervalo, “O Brutalista”, dirigido por Brady Corbet, conta a saga de László Tóth (Adrien Brody), um imigrante húngaro que chega aos Estados Unidos em 1947 e recebe abrigo na casa de um primo, Attila (Alessandro Nivola) e da esposa dele, Audrey (Emma Laird), na Filadélfia.

No início do filme, não sabemos nada sobre László, mas o filme vai revelando, pouco a pouco, os segredos de seu passado e de sua profissão. Descobrimos que ele é um celebrado arquiteto (não é spoiler, isso está no trailer do filme), que teve um passado duríssimo na Europa, e que sonha em trazer de lá a esposa, Erzsébet (Felicity Jones), e a sobrinha órfã, Zsófia (Raffey Cassidy). A vida de László muda quando ele e Attila recebem a tarefa de renovar a biblioteca de um magnata, Harrison Lee Van Buren (Guy Pearce).

Tudo em “O Brutalista” é um assombro: filmado lindamente por Lol Crawley no antigo sistema analógico Vista Vision, criado nos anos 1950, o filme tem um visual lisérgico e impactante, que deu um merecido Oscar de melhor fotografia a Crawley. Outro Oscar merecido foi o de música, vencido por Daniel Blumberg (sim, o mesmo que cantava na banda indie Yuck!). Blumberg é figura conhecida na cena de jazz e música de vanguarda que toca no Café Oto, em Londres.

Assistindo ao filme, imediatamente me transportei para as sessões em que vi, pela primeira vez, duas obras-primas de Paul Thomas Anderson: “Sangue Negro” e “O Mestre”. A exemplo de “O Brutalista”, são filmes sobre personagens obsessivos que “constroem” coisas, sejam poços de petróleo, igrejas, ou, no caso de László Tóth, prédios. São criaturas cujos trabalhos refletem suas personalidades, angústias e sonhos.

A maneira como o roteiro de “O Brutalista”, escrito por Brady Corbet e pela companheira, a atriz e cineasta Mona Fastvold, vai revelando os mistérios da vida de Tóth, é brilhante e surpreendente. Personagens importantes entram e saem de cena de repente, e a chegada da esposa de Tóth, Erzsébet, na segunda parte do filme, leva a história a um nível de drama e tensão excruciantes.

Se depois de ver “Anora”, “A Garota da Agulha”, “A Substância” e “Nickel Boys” eu já considerava a safra de filmes de 2024/2025 surpreendentemente boa, assistir a “O Brutalista” sacramentou o ano como um dos mais prolíficos dos últimos tempos. Numa indústria que parece ter feito uma opção por diversão escapista para crianças e adolescentes, é um alívio perceber que ainda há vida inteligente e adulta no cinema independente e de baixo orçamento.

Um ótimo dia a todas e todos.

27 comentários em "“O Brutalista”: o Oscar melhorou!"

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    Anderson Chalegre

    Barcinski, chegou a assistir “Red Rocket” do Sean Baker? Está na Netflix. A história é de um ex-ator pornô falido na América Trumpista. Vi ontem e adorei. Até mais que “Anora”. O cara é bom demais para criar personagens marginais fascinantes. E, como em “Anora”, não há um coadjuvantes que não seja “alguém”.

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    Joao Gilberto Monteiro

    André, é bom que ainda há esperança para que bons filmes existam em Hollywood, mas não duvido que daqui a pouco, nomes como o Sean Baker, a Mikey Madison, Brady Corbet e sua esposa Mona Fastvold, entre outros que estavam neste Oscar, estejam filmando filmes de heróis e franquias, como acontece agora com o Selton Mello, que estará no próximo filme da Anaconda!!!!

  • Bem, se por um lado da para elogiar o Oscar em relação aos filmes que você citou, por outro é absolutamente ridículo um filme como “Emilia Perez” ter concorrido a 12 oscars. Pura militânica!! E acredito que se não fosse pelas mensagens postadas no twitter o filme levaria mais prêmios.

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    Djalma Beraldo Batista

    A safra de 2024 foi muito boa! Vários filmes interessantes!

    Aliás, na arte em geral também. Na música foi bem legal, não lembro recentemente de um ano com tantos álbuns bons lançados.

  • Eu adorei a declaração do diretor Cord Jefferson quando ele venceu o prêmio de Melhor Roteiro Adaptado por “American Fiction” (que eu adorei):

    “Ao invés de fazer um filme de 200 milhões, façam 20 filmes de 10 milhões”

    Eu costumo ignorar Oscar justamente por causa desse vício deles na própria indústria superfaturada, incluindo gastos com propaganda (que geralmente dobra o custo do filme) e com as campanhas para ganhar prêmios.

  • Vou assistir por esses dias. Concordo q essa safra foi a melhor dos últimos anos. O que achou de Nickel boys? Assisti ontem e achei bem original o modo como foi filmado, mas acho q faltou um arremate no final. Outra coisa: assistiu a zero day no Netflix, Robert de Niro? Poderia ter sido uma grande minissérie, mas pra mim deveria sair como subtítulo “como desperdiçar um mote excelente e um bom elenco”…

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    Anibal Villares

    É a revitalização da fase áurea de Hollywood, (A nova Hollywood); Filmes Densos, com maior liberdade criativa e especialmente a atenção e dedicação ao roteiro, são fatores que superam a mesmice! Viva a fotografia de verdade e chega de Fundos Verdes!

  • Queria ter gostado de The Brutalist.

    Uma pena o roteiro ser tão inconsistente e tão inverossímil (algo típico dos filmes do Corbet). As críticas negativas de arquitetos e historiadores da área são bem justas. Mas, de fato, surpreendente o que a produção consegue alcançar em termos de produção com apenas U$10mi.

  • Oi Barcinski

    Eu também achei “O Brutalista” o melhor filme que eu vi na categoria de melhor filme este ano. Entretanto, eu achei que, pegando apenas esta categoria de melhor filme, os dois anos anteriores foram melhores. Em 2022 teve: “Tàr”, “The Banshees…” e “Nada de Novo no Fronte”. Em 2023 foi ainda melhor: “Poor Things”, “Zone of Interest” e “Anatomia de uma Queda”. Todos excepcionais. O Brutatlista ainda que seja bem filmado e com excelentes atores, acho que ele se perdeu um pouco na segunda parte e foi um pouco indulgente e didatico no final, a exemplo do nosso “Ainda estou aqui”.

    • Sim, eu quis dizer no sentido de “safra” de filmes na categoria. Outra coisa legal este ano, foi o Oscar de direçao ter ido para o Sean Baker. Gosto muito dos outros filmes dele. Além disso, ele fez um belo discurso de apoio ao cinema independente. Chegou a ver?

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