Quando o Existencialismo aterrissou em Hollywood
Cada período histórico tem o cinema que merece. Se durante a Grande Depressão nos EUA, na década de 1930, Hollywood produziu uma série de filmes “edificantes” e que buscavam trazer um pouco de leveza e diversão a uma população que sofria com problemas econômicos, no período da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) a coisa ficou mais séria.
Foi ali que surgiu o chamado “filme de problema social”, uma leva de produções que tratavam de temas pouco abarcados pelo cinema até então, como o alcoolismo (“Farrapo Humano”, de Billy Wilder, 1945), racismo (“A Luz é Para Todos”, de Elia Kazan, 1947) e tortura psicológica (“À Meia-Luz”, de George Cukor, 1944).
Alguns anos depois, em meados dos anos 1950, os “social problem films” já estavam consolidados no gosto do público, e alguns cineastas fizeram filmes que não apenas exploravam temas polêmicos, mas traziam histórias engenhosas em que essas questões não eram o foco principal da trama, mas um ingrediente que adicionava drama e profundidade a questões humanas mais complexas. Na minha visão, foi o aparecimento do Existencialismo em Hollywood e, não por acaso, o período em que despontaram internacionalmente cineastas que exploravam esses temas, como Ingmar Bergman e Michelangelo Antonioni, e quando Fellini fez seus filmes mais interessantes, como “La Dolce Vita” e “Oito e Meio”.
Listei aqui três filmaços hollywoodianos que estão entre meus favoritos do período. Em ordem cronológica:
Marty (Delbert Mann, 1955) Obra-prima da comédia dramática sobre duas criaturas tristes e solitárias, Marty (Ernest Borgnine) e Clara (Betsy Blair), que se encontram por acaso e buscam um romance que traga um pouco de cor às suas vidas cinzentas. Roteiro sublime de Paddy Chaiefsky (“Rede de Intrigas”), adaptado de um telefilme que ele próprio escrevera em 1953. É um filme arrebatador sobre a solidão e a inadequação social. Disponível no Belas Artes à La Carte, Claro TV, ou para locação no Prime Video e Apple TV.
Se Meu Apartamento Falasse (Billy Wilder, 1960) Cada vez que revejo, tenho a certeza de que é um dos melhores filmes da carreira de Wilder. E só ele mesmo para fazer um filme tão engraçado e comovente sobre assuntos tão desagradáveis quanto a misoginia e o assédio no ambiente de trabalho. Jack Lemmon faz um coitado que, tentando subir na empresa, empresta seu apartamento para que os chefes possam ter encontros com suas amantes. Ele tem uma paixão secreta pela ascensorista do prédio, vivida por Shirley MacLaine, sem saber que ela própria é uma das namoradas de um dos chefes. Disponível no MUBI, Claro TV, MGM+, ou para locação na Apple TV e Prime Video.
A Embriaguez do Sucesso (Alexander Mackendrick, 1957) Essa joia do cinema dos anos 1950 não está em nenhum streaming, mas saiu em DVD no Brasil e pode ser encontrado, por preços que variam de 19 a 40 reais, no Mercado Livre. Não deixe de assistir. É um drama pesado sobre o mundo do jornalismo e do culto a celebridades. Burt Lancaster faz o poderoso colunista J.J. Hunsecker (inspirado em Walter Winchell), um ser amoral que usa sua influência junto à opinião pública para manipular todo mundo. Tony Curtis faz um ambicioso assessor de imprensa que vive de bajular Hunsecker. Lindamente fotografao num preto e branco Expressionista pelo genial James Wong Howe, é um dos grandes filmes hollywoodianos do período.
Um ótimo dia a todas e todos!
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