“Pauleta, onde tem um coreano bom aberto agora?”
Recebi a notícia da morte do Pauleta na madrugada de terça, mas a ficha só caiu mesmo três dias depois, na manhã de sexta, quando li um comentário engraçado sobre a quase pipocada do Flamengo contra o Del Valle e instintivamente peguei o celular pra mandar a frase pra ele. Foi ali que me dei conta de que nunca mais falaria com meu amigo, depois de trinta e seis anos.
É duro não poder falar com ele. A gente falava sobre tudo: música, futebol, filmes, receitas, dicas de restaurantes. Nossas mais recentes mensagens versaram sobre um restaurante coreano no Bom Retiro gerenciado por uma família, um daqueles buraquinhos na parede que só ele conhecia, e um vídeo ao vivo do Cabaret Voltaire que nós dois já tínhamos visto pelo menos meia dúzia de vezes. Ele estava contando os dias pra ver o Cabaret Voltaire e eu não me conformo que nunca verá.
Fico rindo sozinho lembrando algumas histórias que vivemos juntos:
Em 93, quase fomos expulsos por um guia do castelo de William Randolph Hearst em San Simeon, na Califórnia, porque não conseguíamos parar de gargalhar com as piadas que fazíamos sobre o bidê do Cidadão Kane.
Em 95, quando eu morava em Nova York e queria acompanhar a final do Carioca (gol de barriga do Renato), liguei pro Pauleta e ele colocou o telefone na frente da TV pra eu ouvir a transmissão. Acabei o jogo chorando na linha.
Os trotes que passamos para o programa imediatamente anterior ao “Garagem” na Rádio Gazeta FM, sorteando ingressos para um falso bar de surfistas em Santos (o bar chamava Monoquilha e ficava na inventada Rua Frederico D’Orey).
A tarde em Itaquera vendo a luta-livre da Trupe do Trovão num ringue armado no meio da rua, e a inesquecível cena da Múmia baixando as calças de um moleque que a havia xingado de “Múmia filha da puta!”;
O “Garagem” foi certamente o maior manancial de gargalhadas que já compartilhamos juntos. Alguns highlights:
Jacintho Figueira Jr., o “Homem do Sapato Branco”, contando como tinha sido corneado por um garçom da boate Vagão Plaza e se vingado dando um tiro que arrancou o mindinho de uma das mãos do Don Juan da Praça Roosevelt;
Bezerra da Silva anunciando Yo La Tengo como “RALA BENGA” e Cocteau Twins como “COCÔ MINDUIM”;
Pauleta e seu surrado Twingo atropelando vinis do Caetano na calçada em frente à rádio e o “Escravo Gabriel” transmitindo ao vivo, pelo celular, a fritura de um vinil de “Araçá Azul” diretamente da chapa do Bar do Seu Chicão, ao lado da emissora;
Jorge Loredo, o Zé Bonitinho, convidando uma ouvinte para um “karaokê no Solarium” (uma varandinha que ficava ao lado da cabine do Galpão 16, onde fazíamos as festas do programa);
Ian McCulloch de sobretudo no sol escaldante do Morumbi vendo Timão x Palmeiras depois de traçar dois x-calabresa na porta do estádio;
Carregando um desacordado Dan Peters, do Mudhoney, depois de ele ser nocauteado por uma combinação matadora de Coquinho (uma cachaça curtida no coco) e buchada no restaurante Galinhada do Bahia;
Celebrando a vitória de nossa campanha para que a escola da ouvinte mirim Bianca permitisse à molecada ouvir rock no recreio (com direito a alunos e toda nossa equipe cantando o hino nacional ao vivo!);
João Gordo e nós cantando “O Homem de Nazaré” para homenagear Antônio Marcos, que havia morrido naquele dia;
Revelando personagens inesquecíveis do programa como Jota C, Fabio Nipoluso, Ary Robocop, Fabio Mortadela, Cantor Boy, Claudio Maksoud e Trovão, além de nossa incansável equipe: Espetacular Larissa, Escravos Geraldo e Gabriel, a Destemida Verônica e o grande Cassolato, além dos DJs Sandrão, Igor, DJ, Paula e outros comparsas.
Enfim, ninguém ganhou nada, mas nos divertimos MUITO.
Não tenho nenhuma lembrança ruim do Pauleta. Nada. Não conheço ninguém que já tenha brigado com ele (com exceção de um integrante de uma banda gaúcha que foi tirar satisfação depois de um programa especial chamado “A Explosão do Rock Gaúcho”, em que dois irmãos piromaníacos nos ajudaram a mandar pelos ares uma pilha de CDs horríveis).
Poucas horas atrás, recebi a ligação de um cara que não conhecia. Identificou-se como amigo de longa data do Paulão e disse: “Nunca nos encontramos, mas o Paulão tinha um amor tão grande por você que eu herdei isso dele e tenho a nítida impressão de que somos melhores amigos”.
Pauleta tinha esse poder de unir as pessoas. Era um ímã de bondade e gentileza, e todos nós gravitávamos em torno dele. Pauleta era o nosso Sol.
Um maravilhoso final de semana a todas e todos, ouvindo Blondie e Echo, comendo churrasco coreano, assistindo no Youtube a um jogo da terceira divisão da Moldávia ou fazendo qualquer coisa que lhe dê prazer e alegria.
56 comentários em "“Pauleta, onde tem um coreano bom aberto agora?”"
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Barça! Sempre fui muito impactado pelo Garagem e por tudo o que vocês faziam. Te falei isso no Bestial Quadra, o programa com o Toninho Iron. Tenho vários grandes amigos que tiveram suas vidas transformadas por vocês. Resolvi pegar o texto de um deles. Grande abraço!
“Eu tinha 15 anos, era 1999, quando conheci o Programa Garagem, na Brasil 2000 FM. Já se dizia o programa de rádio mais maldito do Brasil — e era. Tinha um quê de secreto, clube da meia-noite para iniciados. Eu, de walkman, deitado na cama, esperando começar. Um ritual subversivo, pelo menos pra mim.
Era uma fonte infinita de música nova: Trail of Dead, DJ Toca Disco (NOBODY LIKES THE RECORDS THAT I PLAY…), Kittie, Queens of the Stone Age, Anna Calvi, The XX. E personagens: Rita Cadillac, Max Fivelinha, o ouvinte Flávio gritando TOCA SONIC YOUTH!, a sensacional Larissa, o Rock na Escola (campanha para que tocasse Nirvana e Motorhead no recreio da escola, com os mirins no dial), a Ana Maria Broca e CDs esmigalhados no estúdio.
Anos depois, em 2008, antes de um show do Mudhoney no Clash Club, entrei num boteco ao lado e dei de cara com Paulão e Barcinski no balcão, bebendo tranquilos. Pareciam Joey Ramone esperando nas escadarias do hotel, sentado nas escadas, com uma pilha de discos no colo, história que eles tanto lembravam. Fiquei assustado e não consegui falar. Eram meus ídolos, mais que o próprio Mark Arm. Me arrependo até hoje de não ter falado com os caras.
Nessa noite chuvosa de pós-punk o Paulão se foi, e com ele parte de uma história linda de amor pela música e da voz mais engraçada e ranzinza do rádio brasileiro. Paz, Paulão. Força aos amigos e familiares. E que a Ana Maria Broca siga com você. Obrigado, de verdade!”
(Felipe Rodrigues)
Muito obrigado pelo depoimento, eu tinha lido, muito legal.
Nunca conversei pessoalmente com o Pauleta, mas sempre escrevia sobre alguma banda que estava escutando naquele momento ou uma música específica que tivesse batido com força no perfil do Garagem no Facebook, quando a rede ainda era relevante, em 2014. Naquele ano, o geninho Ty Segall tinha lançado o irretocável Manipulator. O primeiro clipe foi o da música The Singer. Imagens bacanas, letra esperta e música lindíssima. Escrevi no Garagem: “Ty Segall NUNCA me decepcionou.” E anexei o clipe. O primeiro comentário e curtida foi do Pauleta: “Nem a mim.”
Demais isso, Pauleta realmente respondia a todo mundo.
Barça, não conheci pessoalmente o Pauleta, mas sempre tive a impressão de que era um dos caras mais gente fina da existência, e a ida dele parece que só corroborou essa impressão, por conta da quantidade de gente querida que reforçou o quão daora ele era. Sinto muito por você ter perdido um amigo tão querido, mas fico feliz por você ter tido um amigo como o Pauleta no meio desse caos e universo de improbabilidades que a nossa vida é. Celebre o Pauleta, celebre os que foram, celebre com os que estão aqui. Abraço
Muito obrigado pelas palavras, Marcos!
Belo texto, André. Quantas vezes a gente leva três ou quatro dias para processar uma perda dessas na prática? Meus sentimentos.
Imagino que muitas!
Meus Sentimentos Barça, não é fácil perdemos amigos tão intensos como este.
Não mesmo!
Lindo texto, linda amizade. Meus sentimentos Barça.
Valeu demais, obrigado pelas palavras!
André eu conhecia o Pauleta pelo rádio, encontrei em dois ou três shows! Mas é por esse texto que eu gostaria de dizer como sinto falta dos amigos que estão aqui ou já se foram!
Muito obrigado por tudo, por livros, histórias e muito mais! Mas principalmente pelo amigo e parceiro, era maravilhoso ouvir vocês rindo de situações onde tinham sido cúmplices. Paulão era como um Ian Curtis ou Sid Barret “how i wish you are here”… Todos temos irmãos que vieram de outros lugares do universo!
Pauleta, obrigado por tudo!
Valeu demais, Nick!
André, comigo aconteceu a mesma coisa. Hoje mesmo ia mandar uma msg pra ele e logo depois bateu a mesma sensação amarga: nunca mais iria falar com meu amigo. Ainda tá sendo muito triste processar tudo o que aconteceu. Meus sentimentos para todos os amigos, familiares e pra Jaqueline (que eu e a minha esposa acabamos por fazer amizade e sempre foi muito gente fina com a gente). Abs.
saudações e força, barcinski! que o paulo césar esteja em um bom lugar agora! ♂️
Sou muito fã dos 4 e assinante tb do ABFP, além da sua página. Meus sentimentos pra todos vocês! Muita força!
Paulão fará muita falta!
Adorava as músicas que ele tocava e as dicas que ele dava!
Dava pra sentir o quanto ele gostava de comida, música e futebol, além dos cachorros.
Um grande abraço pra todos!
Abração, Guto!
Fui ao lançamento da biografia do Nelson Ned na Livraria da Travessa em São Paulo.
Assim que peguei seu autógrafo, vi o Paulão na fila. Não tinha ouvido falar dele até conhecer o ABFP (infelizmente!), mas não pude perder a chance de falar pra ele o quanto gostava do trabalho de vocês. As músicas, dicas, convidados, histórias… um deleite!
Foi bem rápido, menos de um minuto falando com o cara, mas o suficiente pra perceber como era generoso e gente boa. Sensação de conhecê-lo há anos.
Ler os textos e posts de toda a turma de vocês só reforça isso. Pena que demorou pra ter contato com o trabalho do Paulão. Mas como disse o Forasta, o Paulão continuará vivo entre nós com seu trabalho que não será esquecido.
Um abraço!
Grande abraço, Luiz!
Sempre que encontrava o Pauleta nos shows promovidos pela Maraty, fazia questão de encontrar o Pauleta e lembrá-lo da nossa paixão compartilhada pelo Blondie. Gente boníssima!
Pauleta, o homem que “segurava a marimba”. Como já escreveram, perdemos Paulão e ganhamos Paulão.
E esguichava o vinagre!
Paulão eternamente em nossos corações. Aqui ouvinte do garagem e assinante do ABFP. Um outro dia trombei Paulao numa loja de discos de um amigo em comum e falei para ele que eu colaborava com uns caraminguás para o ABFP. Quase contei o episódio quando eu ingenuamente jovem, cutuquei ele que estava compenetrado no show (nao lembro se DKT MC5 ou The Kills) o chamando de Garagem. Ele me olhou com uma cara de reprovação que até sai de perto com vergonha hahaha.
Por uma daquelas tristes coincidências da vida, eu estava ouvindo o ABFP de vocês com o Guilherme Isnard quando fiquei sabendo. Me bateu uma tristeza muito grande! Que Paulão descanse em paz onde quer que esteja…
Valeu demais!
Nunca encontrei vocês pessoalmente. No ano passado fomos passear no Devagar e comentei com minha esposa que aquele era o barco de um jornalista amigo meu. Esse é o sentimento que ficou depois de acompanhar vocês por tanto tempo. Por isso posso dizer sem dúvida que também perdi um amigo nesta semana.
Pois é, perdemos todos nós!
Na terça eu tava chegando no restaurante que eu almoço ao lado do trabalho quando peguei o celular e olhei no twitter o post do Álvaro sobre a partida do Pauleta. Corri pro banheiro e comecei a chorar. Até agora eu não acredito. O Pauleta era um doce de pessoa, cara de coração bom demais. Mesmo morando a milhares de Km de vocês, os tenho com muito carinho. Lamento muito não poder ir aí te dar um abraço, mas desejo forças a todos. Pauleta estará sempre conosco.
Estará sim, Moacir, brigadão pelas palavras!
Nunca estive com o Pauleta, nem troquei qualquer mensagem com ele, mas a sensação é de perder um amigo próximo. Meus sentimentos, Barça. Sou fã de vocês e sinto como se fôssemos amigos.
Muito obrigado, Rodrigo!
Aliás, para quem possa interessar, esse é o garagem que eu mencionei
https://youtu.be/NpGD3Eh5leU?is=I_mv9widnip1jikc
A única vez que eu encontrei o Paulão foi no cine joia durante o show do Dean Wareham, eu disse para ele que até hoje lembrava como que ele havia anunciado a banda ao vivo durante o garagem (“O Garagem chegou à Luna”) e o quanto aquele programa me impactou e me apresentou à uma das minhas bandas favoritas da vida… Ele foi muito simpático e espero que tenha gostado do meu comentário. Quando fiquei sabendo de sua passagem, fui escutar novamente o programa que alguém subiu no YouTube, e fiquei muito emocionado… Obrigado ao Paulão por tudo isso e a vc por ter trazido o Dean e me proporcionado esse momento inesquecível.
Esse foi demais, Luna ao vivo.
Eu acho que vcs não tem a noção da importância do Garagem em nossas vidas. Comecei a leitura desse texto rindo ao lembrar do Jacinto contando a história do garçom que pegava a esposa dele – “o que vc tá fazendo, belo? vc não pode comer a esposa do seu patrão” – e terminei chorando, pensando no quanto o Paulão vai fazer falta. Que amizade linda a de vocês. Muito obrigado por compartilhar com a gente.
“Belo… cê vai morrer!”
Só de ouvir ele, dava pra sentir quanto gente boa ele era!! Comovente a paixão dele pelos cachorros e pelos bons sons.
Sempre que pedia dicas de lojas de disco, restaurantes ou sites para comprar camisetas de banda no Instagram ou comentava algum ABFP ele respondia prontamente. Um baita amigo que não conheci pessoalmente (vi ele de perto no show do Teenage Fanculb em 2011). Abraço carinhoso para todos vocês!
Abração, Alvaro!
Barça, como tem sido difícil assimilar essa partida do Pauleta. Não é só tristeza, que existe, claro. Mas é a incapacidade do meu cérebro de processar essa ausência. E se é difícil para nós, ouvinte, leitor, seguidor, imagino para você. Obrigado por esse texto delicioso. Que tenha feito tão bem a você quanto fez a mim.
Pois é, a presença dele era meio que uma paisagem, a gente já estava acostumado.
Na ultima vez que o vi, no Levitation, pensei: eh o cara mais generoso que conheço. Acho que virou jornalista só para espalhar todas as coisas boas que conhecia, musicas, filmes, canais do youtube, dicas culinárias. Influenciou tanta gente com isso que deve ter falecido com um milhão de amigos que nem o conheciam mas que se sentiam assim pela generosidade como viveu. Viva o Paulão!
Tinha sim, impressionante a quantidade de amigos.
Xará, que amizade linda. Me emocionei, como tenho me emocionado a cada homenagem que vejo na redes sociais e em alguns textos como do Álvaro, Forasta e Júlio Bernardo. O tricolor Nelson Rodrigues cravou: “Toda unanimidade é burra”. Isso porque Nelsão era de outra época e não teve a oportunidade de conhecer o Pauleta. Se tivesse essa sorte, perceberia que o cara de coração gigante, generoso, solicito, engraçado, iluminado e sei lá mais o que, desafiaria essa suposta lógica. Um cara que no momento da despedida uniu a todos no mesmo sentimento, uma admiração profunda e um carinho sem tamanho. Seu legado é eterno. Abração
Álvaro está ajudando a Jac com o inventário e ficou emocionado com a sua generosidade, xará!
Imagina. Precisando é só chamar. Abração
Ahhh, essa vida marvada!
Abraço grandão <3
Beijo, Márcia!
Barcinski, a amizade que vocês tinham sempre foi admirável. Com muita leveza, vocês criaram momentos inesquecíveis e foram o refúgio de muita gente em dias difíceis. Em fase recente de vida, o ABFP virou a minha companhia mais aguardada no trânsito para o trabalho.
Assim como o rapaz que te ligou, eu nunca conversei com vocês, mas sempre me senti um amigo próximo. Por ironia do destino, o velório do nosso querido Paulão foi a uma quadra da minha casa. Fiquei a tarde toda na sacada, olhando o movimento, dividido se ia até lá. Acabei decidindo me despedir à minha maneira: em casa, ouvindo um ABFP antigo.
Espero que você fique bem, na medida do possível. Um abraço.
Valeu demais, Gustavo!
Não cheguei a ser ouvinte do Garagem, mas sou ouvinte assíduo e assinante do ABFP. Desde que recebi a notícia me pego pensando de tempos em tempos como vai ser estranho não ter mais nenhum programa novo pra ouvir com o Paulão. Meus sentimentos a você e a todos os amigos, as lembranças boas pelo menos serão intermináveis.
Estranho demais!
Sinto muito pela perda de um amigo tão querido, cara. Para os leitores/ouvintes que acompanharam o Paulão por décadas, é uma tristeza grande também. Força pra você e pra todos do Garagem e do ABFP.
Valeu demais, Cauê!
Porra, caiu um cisco aqui. Meus sentimentos!
Muito obrigado!