mar/2025

“Seconds”: um clássico da paranoia

Por André Barcinski

“Seconds”: um clássico da paranoia

Por André Barcinski

A plataforma Filmicca exibe “Seconds” (no Brasil, “O Segundo Rosto”), dirigido em 1966 por John Frankenheimer. Se ainda não conhece, sugiro assistir imediatamente.

Frankenheimer (1930-2002) foi um dos grandes nomes do cinema norte-americano autoral dos anos 1960 e 1970. Fez filmes durante a Guerra Fria e várias de suas obras lidam com temas como espionagem e conspirações governamentais.

Em 1962, fez “Sob o Domínio do Mal” (“The Manchurian Candidate”), com Frank Sinatra e Laurence Harvey, em que este faz um soldado da Guerra da Coreia que é capturado por comunistas e sofre uma lavagem cerebral que o torna um assassino a mando dos comunistas (“The Manchurian Candidate” foi refilmado em 2004 por Jonathan Demme, com Denzel Washington no papel principal).

Dois anos depois, Frankenheimer fez o emocionante “Sete Dias em Maio”, sobre um golpe de Estado planejado por militares norte-americanos para retirar do poder o presidente dos Estados Unidos depois que ele assina um tratado de desarmamento nuclear com a União Soviética.

Finalmente, em 1966, o cineasta faz “Seconds”, completando o que críticos chamaram de “Trilogia da Paranoia”: Rock Hudson faz um banqueiro deprimido com sua vida monótona que é contatado por uma empresa misteriosa chamada simplesmente de “A Companhia”, com a oferta de lhe oferecer uma “nova vida” e uma identidade diferente, obtida por meio de cirurgias plásticas. Lembrou “A Substância”, de Coralie Fargeat? Pois é.

“Seconds” é um filme muito importante para a Nova Hollywood. Cineastas então em início de carreira, como Coppola, Scorsese, De Palma e Schrader, viram no filme uma opção criativa e ousada ao estilo careta dos grandes estúdios. Frankenheimer, junto com outros cineastas autorais que já tinham carreiras consolidadas, como Sam Peckinpah, Don Siegel, Sidney Lumet e John Huston, viraram ídolos para a nova geração.

“Seconds” é inovador no tema e no estilo. Escrito por Lewis John Carlino, adaptado de um livro de David Ely, e fotografado pelo genial James Wong Howe, que usou sombras e lentes grandes angulares para realçar a sensação de suspense e paranoia, o filme é um delírio misterioso que influenciou muita gente. É impossível ver esse filme e não imaginar o impacto que ele teve em David Lynch e David Cronenberg.

Frankenheimer teve uma carreira das mais ecléticas. Fez “Grand Prix” (1966), sobre Fórmula-1, “Operação França 2” (quase tão bom quanto o primeiro) e o “thriller” de espionagem “Domingo Negro” (1977). No fim da carreira, alternou abacaxis gigantes (“A Ilha do Dr. Moreau”, 1996) com excelentes filmes de ação (“Ronin”, 1998). Tive a sorte de entrevistá-lo no lançamento desse filme e falar sobre sua trajetória no cinema e TV. Frankenheimer dizia que suas experiências dirigindo filmes e programas para TV o haviam ensinado a trabalhar de forma rápida e barata.

Vale muito a pena procurar outros filmes escritos por Lewis John Carlino (1932 – 2020) e fotografados por James Wong Howe (1899-1976). O primeiro escreveu e dirigiu um ótimo filme completamente esquecido, “O Grande Santini” (1979), com Robert Duvall em um de seus melhores papéis, o de um militar com sérios problemas de relacionamento familiar.

Howe, cujo nome de batismo era Wong Tung Jim, foi um dos maiores fotógrafos de cinema de todos os tempos. Começou a trabalhar no cinema mudo, venceu dois Oscars – “A Rosa Tatuada” (1956) e “Hud” (1964) – e teve uma carreira tumultuada, sofrendo racismo por ter nascido na China e ter casado, em 1937, com uma mulher branca (o matrimônio só foi reconhecido pelo estado da Califórnia 11 anos depois, quando a lei que proibia casamentos inter-raciais foi abolida).

Howe foi um mestre da fotografia de cinema com baixa luminosidade, usando sombras, e também um pioneiro na técnica de movimentação de câmera, usando carrinhos e câmeras no ombro. Em “Seconds”, um de seus operadores de câmera foi o fotógrafo John Alonzo (1934-2001), que depois trabalharia em “Chinatown” e “Scarface”. Howe sabia que Alonzo fazia documentários e estava acostumado a filmar com a câmera no ombro, e orientou o então jovem aprendiz a usar lentes “olho de peixe” numa câmera móvel para realçar o sentimento de vertigem e paranoia do filme.

Para quem se interessar, aqui está um artigo bem legal, em inglês, que analisa a fotografia de alguns filmes feitos por James Wong Howe.

Um ótimo fim de semana a todas e todos.

10 comentários em "“Seconds”: um clássico da paranoia"

  • Esse é o meu filme preferido do Frankenheimer. O clima de paranóia e de “loucura” atingido aqui para mim foi único. O impacto que esse filme teve em mim foi mastondôntico.

  • Vou ter que assinar outro streaming! Operação França 2 , Ronin, O Grande Santini ( sensacional a cena do jogo de basquete entre pai e filho ) são todos muito bons !
    Acho que o melhor dos seus textos são os filmes, albums e livros antigos e a história por trás de tudo !
    Se bem que as novidades mais obscuras também ! Ou seja tudo é muito Bom !

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    Cleibsom Carlos Alves Cabral

    Sensacional!!!Um dos melhores filmes de todos os tempos e me emociono só de escrever sobre ele!!!Nunca o vazio, a opressão da rotina diária e as faltas de perspectiva e de sentido da vida foram retratadas de forma tão crua, direta e sem concessões no cinema como em O SEGUNDO ROSTO. O filme consegue sintetizar em meras duas horas tudo o que o existencialismo se esforçou para dizer em milhares de páginas e não conseguiu. Apesar de pesadíssimo, O SEGUNDO ROSTO “suaviza” em muito a aspereza do livro em que foi baseado, que é muito mais “opressora” do que a do filme. Evidentemente, em uma época em que a alegria, a felicidade e a beleza da vida, sem ironia, parecem compulsórias, um filme soturno como este não tem vez.

  • Eclético define esse cara, e acertou (quase) todos os lados que atirou haha, mas mesmo quando ele errou consigo entender o contexto, grandes realizadores do cinema são assim.

    The Manchurian Candidate é o meu favorito dele (gosto muito da versão de 2004 também) e Ronin fica em segundo lugar, baita diretor!

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