Lou Reed, 80 anos: um Top 10 da carreira solo do “Transformer”
Hoje, 2 de março, Lou Reed completaria 80 anos. Em tributo, fiz uma lista de minhas dez músicas prediletas da carreira solo dele. Não incluí nenhuma canção que ele compôs durante o período em que esteve no Velvet Underground e escolhi apenas uma música por disco, para dar um panorama mais amplo da carreira de Reed.
Em ordem cronológica:
Perfect Day (Transformer, 1972) Eu teria incluído “Satellite of Love”, minha predileta do álbum “Transformer”, mas “Satellite” foi gravada numa demo pelo Velvet Underground em 1970, então está fora. “Transformer” é o segundo disco solo de Reed, mas deveria ser considerado o primeiro, já que o álbum anterior, “Lou Reed”, contém nada menos de oito faixas que Reed fizera com o Velvet. “Perfect Day”, produzida por David Bowie (ajudando o amigo e ídolo) e Mick Ronson (que fez o bonito arranjo de cordas e tocou piano na faixa) é a trilha sonora de um domingo passeando pelo Central Park, ainda chapado de heroína: “Você me faz esquecer eu mesmo”.
Lady Day (Berlin, 1973) Devo ser um dos poucos fãs de Lou Reed que não curte “Berlin”. Acho um disco mais cultuado do que bom e não curto esse conceito de discos feitos sobre a mesma temática. “Berlin” é uma espécie de ópera junkie sobre dois amantes e foi inspirado por um desafio feito a Reed pelo produtor Bob Ezrin (Kiss, Aerosmith), que disse que gostava das letras de Reed, mas que elas não tinham fim, citando “Berlin”, faixa do primeiro disco solo do compositor. Mas “Lady Day”, uma baladona dramática com um piano que parece saído de algum cabaré vienense, é muito forte.
Kill Your Sons (Sally Can’t Dance, 1974) Está aí uma música que não consigo ouvir sem ficar com lágrimas nos olhos. Descreve os eletrochoques que Reed sofreu em hospitais psiquiátricos na adolescência, com anuência dos pais, para curá-lo de tendências “bizarras”. Reed canta com um ar meio blasé, sem nenhum tipo de inflexão dramática, o que adiciona um tom sombrio à canção. É uma paulada. O vídeo a seguir é de 1984, mas traz uma versão matadora da canção. Lou está acompanhado por uma banda fora de série, que inclui o guitarrista Bob Quine e o baixista Fernando Saunders.
Crazy Feeling (Coney Island Baby, 1975) Nunca achei que diria isso, mas esse disco de Lou Reed é perfeito para ouvir numa manhã ensolarada de domingo. Um LP apaixonado, alegre, totalmente fora do universo escuro e melancólico que se espera de Lou. Na época, ele estava vivendo um romance com Rachel Humpries, uma mulher trans que viria a morrer de AIDS em 1990, e o amor transborda de todas as faixas, em especial da que abre o disco, “Crazy Feeling”: “Você é o tipo de pessoa por quem eu sempre esperei / Você é o tipo de pessoa que eu sempre sonhei amar”.
City Lights (The Bells, 1979) “The Bells” é um disco muito estranho na discografia de Lou. Parece uma tentativa de imitar Bowie e fazer um álbum pop, mas Lou está visivelmente desconfortável no universo disco e da música de FM. É um LP que eu detestei quando ouvi pela primeira vez, mas agora amo. E essa faixa, “City Lights”, uma parceria com Nils Lofgren (Crazy Horse), é muito engraçada: Lou em modo Tony Bennett.
My Old Man (Growing Up in Public, 1980) Falando em discos estranhos de Lou Reed, “Growing Up in Public” está no topo da lista: é marcado por um power pop animado por baixo de algumas das letras mais diretas e confessionais de um compositor conhecido exatamente por sua sinceridade. Lou fala de fama (“Growing Up in Public”), de sua relação com a bebida (“The Power of Positive Drinking”) e, em “My Old Man”, descreve, quase que em prosa, memórias dos dias numa escola pública do Brooklyn e da relação conturbada com o pai. É uma obra de arte.
My House (The Blue Mask, 1982) Depois de um período pop, Lou fez um disco mais lúgubre e minimalista. Juntou uma banda pequena e genial, com o exímio guitarrista Robert Quine, o baixista Fernando Saunders (que se tornaria parceiro por muitos anos) e o baterista Doane Perry (do Jethro Tull), e gravou “The Blue Mask”, um de seus melhores trabalhos. “My House” é uma delicada homenagem ao poeta Delmore Schwartz (1913-1966), ídolo de Lou, na qual o compositor descreve uma sessão de bruxaria em que invocou o espírito de Delmore, que aparece na sala de Lou.
Endlessly Jealous (New Sensations, 1984) Lou claramente copia a fase “Let’s Dance” do amigo Bowie, fazendo um disco pop dançante que teve até – não me matem – uma tentativa de emplacar um clipe na MTV, com “I Love You Suzanne”. Mas a melhor do disco é “Endlessly Jealous”, que não faria feio no repertório de arena de Bruce Springsteen na fase “Born in the USA”.
Romeo Had Juliette (New York, 1989) Eu disse ali atrás que não curtia discos conceituais, mas abro uma exceção para “New York”, uma obra-prima do início ao fim, ode à cidade que Lou amava acima de qualquer coisa. Periga ser o melhor disco solo de Lou, melhor até que “Transformer”. É difícil escolher uma faixa, mas o riff de guitarra de “Romeo Had Juliette” e versos como “Um crucifixo de diamante em sua orelha esquerda / é usado para dispersar o temor / de que ele pode ter deixado sua alma num carro alugado” fazem dessa canção um dos grandes momentos da carreira de Lou.
Open House (Songs for Drella, 1990) Em 1987, Andy Warhol, o artista plástico, fotógrafo, celebridade e mentor do Velvet, morreu depois de uma cirurgia. Lou Reed e John Cale, que não se viam há anos, se encontraram no velório e, por sugestão do pintor e cineasta Julian Schnabel (de “Basquiat” e “O Escafandro e a Borboleta”, se reuniram para fazer um show de canções inéditas em homenagem a ele. O show foi filmado (e exibido no Brasil, pasme, na TV Bandeirantes!) e depois virou um disco maravilhoso. Poderia escolher várias canções, mas fico com a sombria “Open House”.
13 comentários em "Lou Reed, 80 anos: um Top 10 da carreira solo do “Transformer”"
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Não consigo gostar do Songs For Drella e amo o New York… Lou foi um artista único, inigualável!
é meu preferido dele, ao lado de berlin 🙂
até o Rick Wakeman tocou nesse disco! discaço!
Aquele disco de 72 (ano em que nasci), que tem um passarinho na capa ao lado de uma coroa, acho que se chama Lou Reed, deve ser o 1º solo dele, foi produzido pelo Bowie….acho esse disco FANTÁSTICO….e não se fala muito dele…vários hits! “I Can’t Stand it”, “Lisa Says”, “Wild Child”…o disco é excelente de cabo à rabo! Lou Reed é demais!
Este é o primeiro solo. É excelente, mas quase todas as músicas são da época do Velvet. Considero mais um disco perdido do Velvet do que um LP solo do Reed. Abraço!
Power and Glory. Mas difícil trocar com alguma da lista mesmo.
Abraço
Gosto muito.
Sou fanzasso do Lou Reed, só pelo Velvet Underground já valeria mas o cara ainda fez uma carreira solo maravilhosa. Relacionado ao assunto, esse mês sai na Netflix uma série documental sobre o Andy Warhol, parece interessante, a série terá trechos dos diários de Andy em áudios com a “voz dele” criada por inteligência artificial.
Legal a notícia dessa série, verei com certeza.
Muita coisa boa… New York ê perfeito de cabo a rabo. Nunca saiu de minha parada particular desde o lançamento.
Disco excepcional.
André,
“Magic and Loss” não merecia ter uma faixa nessa lista?
Muito bom disco, mas não coube. Qual seria?