Peço desculpas pela demora em publicar esse texto, mas quando recebi a notícia da morte de Ace Frehley, estava num trabalho e tinha programado diversos textos. Agora consegui fazer justiça a Space Ace…
Ace Frehley se foi aos 74. Era uma espécie de George Harrison do Kiss: aquele cara que era supertalentoso, mas que passou um tempão obscurecido pelo brilho dos dois personagens centrais da banda, Gene Simmons e Paul Stanley.
O Kiss era um exército, comandado com mãos de ferro por Gene e Paul, os dois principais compositores da banda. Ace tinha de se contentar com as sobras: no disco de estreia, emplacou “Cold Gin”, mas só foi cantar numa música no sexto disco, “Love Gun” (1977), quando compôs e cantou “Shock Me”.
Mas a vingança não demoraria: no ano seguinte, 1978, quando o Kiss cometeu a ousadia de lançar um disco solo de cada um dos integrantes, a música “New York Groove”, gravada no disco de Ace, tornou-se o maior sucesso desses LPs, um hino tocado até hoje em todos os jogos do time de beisebol dos Mets, de Nova York.
O “time” do Kiss era dividido também pelo gosto por drogas e álcool: Gene Simmons era um abstêmio obsessivo e Paul Stanley raramente bebia, mas Ace e o baterista Peter Criss eram dois malucos inveterados. Ace costumava dizer que não tinha a menor ideia de como havia sobrevivido aos anos 70 e 80. Ele tocou com o Kiss do início da banda, em 1972/73, até 1982, e depois retornou para a célebre “turnê de reunião” de 1996 – a primeira de várias. Foi a primeira vez que o quarteto original tocava junto desde 1979.
Eu estava na coletiva de lançamento dessa turnê, realizada em Nova York num porta-aviões da Marinha americana. Foi um evento tão ridículo quanto fascinante. Depois disso, tive a sorte de entrevistar Gene Simmons diversas vezes, mas nunca consegui falar com Ace, que fez seu último show com o Kiss em 2002. E não foi por falta de tentativa: os agentes da banda simplesmente não marcavam entrevistas para Ace. Apenas Gene e Paul falavam com os jornalistas. Vi uns shows dessa turnê e a impressão era de que a bateria de Peter Criss era playback, porque o estado físico do cara não fazia crer que ele conseguisse bater tão forte.
Durante toda aquela fase do Kiss, Ace e Peter não se importavam em ser escanteados. Quando a banda foi gravar o LP “Psycho Circus”, o primeiro com a formação original desde “Dinasty”, a banda usou músicos de estúdio. Ace só tocou em duas faixas do disco e Peter, em uma (por coincidência, em “Into the Void”, composta por Ace).
A tour do disco “Psycho Circus” foi exatamente o que o nome dizia: um circo psicótico. O Kiss inventou um “show em 3D”, e os fãs recebiam na entrada um óculos que permitia ver projeções tridimensionais em telões no palco. À época, perguntei a Gene como ia funcionar a bagaça (eu só veria o show alguns dias depois):
O show de vocês é em terceira dimensão. Como funciona?
É simples: na entrada, todo mundo recebe um óculos de 3-D. Do lado do palco há um telão gigantesco, que exibe imagens em terceira dimensão. Com os óculos, o espectador vai ter a impressão de que estamos a meio metro de distância. Ninguém vai poder reclamar que não viu o show direito porque estava longe do palco. É uma revolução no conceito de shows ao vivo! Além do mais, nosso show faz bem para a saúde…
Como assim?
Bom, a potência de nossos holofotes é tão grande que o público sai bronzeado, com uma cor bem bacana, saudável.
Alguma outra novidade?
Muitas. Este ano estamos iniciando nossa campanha de dominação mundial. Vamos lançar um carro do Kiss, pela nossa nova montadora, a Kiss Motors. Será um carro esporte fantástico, preto e prateado, com dois lugares. Os faróis serão o logotipo do Kiss. O carro terá um amplificador de guitarra no painel, para você poder tocar guitarra enquanto dirige. Vamos fabricar mil carros e começaremos a venda em 1999.
Outras boas novas para os fãs: começamos a rodar nosso filme, “Detroit Rock City”, estrelado por Edward Furlong (o menino de “O Exterminador do Futuro 2”) e, claro, por nós! É a história de quatro fãs do Kiss que fazem de tudo para assistir a um show da banda. Em janeiro, vamos aparecer na “Playboy”. Outra novidade: estamos em negociação com a Coca-Cola para produzir um novo refrigerante, o Kiss-Cola. Mal posso esperar para ter minha cara numa latinha. Só o Kiss poderia fazer uma coisa dessas. Já imaginou, R.E.M.-Cola, ou Celine Dion-Cola?
Você não acha que tanto merchandising pode prejudicar a crebibilidade da banda?
Credibilidade? Está louco? Credibilidade é uma palavra usada apenas por artistas que não têm a coragem de fazer o que realmente querem. Nós nunca tivemos credibilidade alguma, então por que devemos nos preocupar? Não estamos forçando ninguém a comprar nada!
Adeus, Ace Frehley, o homem do espaço que gravou discos clássicos, influenciou gerações e aturou Gene Simmons e Paul Stanley por tantos anos!
Um ótimo dia a todas e todos.
20 comentários em "Boa viagem, Space Ace!"
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Belo texto, entraria fácil no “Encontros com Criaturas Notáveis”
Assisti o Psycho Circus em Interlagos e gostei do show, mas entendo quem não gostou. Kiss ao vivo é tipo uma Disneylândia, é o que hoje chamam de experiência (aargh!), não dá pra esperar muita coisa. Mas foi uma chance única de ver a formação original. Já em disco, é outra coisa. Esqueça por um momento toda maquiagem e marketing do tio Gene e a mágica acontece, eles são uma boa banda e com grandes canções. Cold Gin, God of Thunder, Detroit Rock City, Parasite, Rock Bottom entre outras. Ace era totalmente pés no chão e seu estilo de tocar guitarra , chicken pick, é a assinatura do Kiss. Tem uma entrevista no YT, no canal Guitar Moves do Matt Sweeney que ele entrega todos seus truques na maior humildade.
Exatamente. Outro dia um amigo que curte música boa pecou ao dizer “o Kiss é uma boa banda, mas nao teve o sucesso ou reconhecimento devido”. Comparou com Led e Sabbath. Comercialmente deve ser a maior (nao tenho certeza em relaçao ao Led).
A lista de clássicos que você mencionou e mais umas 10 contradizem essa percepção
Nunca levei a sério a banda.
A imitação caricata de um estilo musical.
Ace foi meu segundo guitarrista favorito da adolescência depois do George Harrison. Quando ele estava num dia bom era brilhante, quando estava num dia ruim era um desastre. Tive o dúbio privilégio de testemunhar os dois lados da moeda. Em 95 vi um show solo dele em Cleveland, e foi divertidíssimo. Ele estava tocando com o velho chapa Richie Scarlett e mais dois gurizões na cozinha que obviamente haviam crescido com KISS e deram o sangue. Já o show da turnê Psycho Circus que vi em Londres em 99 foi um porre, Ace estava com uma aparência horrível (bem possivelmente mamado) e o show foi burocrático.
É muito bom e divertido ouvir o Kiss até ali o Creatures of the Night, principalmente o som da guitarra do Ace Frehley. Um cara que ficou mais de lado, mas pelas reações de outras bandas, mostra o impacto que ele teve para todos.
Um off-topic que lembrei ao ouvir o Kiss é isso daqui, Barça. Acho que você chegou a publicar no site: um compilado com o Paul Stanley durantes os shows. É de chorar de rir!
https://youtu.be/N7rilvZwnzM?si=x7UYn1Ps6EUh3ki7
Isso é o melhor áudio pra ACABAR com uma festa.
Só assisti o Kiss ao vivo uma vez, no Monsters Of Rock de 1994. Todos os shows das demais bandas foram muito bons (Dr. Sin, Angra, Viper e Raimundos, Slayer, Black Sabbath e Suicidal Tendencies), menos o do Kiss. O palco parecia um picadeiro, o som não estava lá essas coisas, e eu consegui aguentar apenas umas três músicas antes de literalmente achar um canto e dormir enquanto os demais amigos que foram comigo se esbaldavam, pois eram fãs de carteirinha. Mas gosto das músicas da fase inicial da banda (menos o famigerado The Elder), e essas músicas mostram que Ace realmente merecia muito mais reconhecimento do que teve. A jam lá no céu (ou inferno?) deve estar fervendo a essas horas
“New York Groove” não é do Ace, é um cover da banda Hello, composta por Russ Ballard.
Tem razão, o texto dá a impressão de que a música é dele. Vou mudar, obrigado.
Texto espetacular, muito obrigado Barça! Kiss é uma das minhas bandas preferidas de sempre.
Quando estou de mau humor gosto de ver os clipes do KISS dos anos 80 só para dar risada.
São ridículos.
Eu gosto de “forever”, tanto da música, como do video. Me julgem. hahahaha
Acontece nas melhores famílias!
Temos que concordar que o Gene Simmons tem senso de humor.
Também acho.
Eu estava no show do KISS em 1999 no autódromo de Interlagos…Sou fã da banda, mas nesse show os tais efeitos papagaiados pelo Gene na entrevista com o Barça foram decepcionantes e ridículos. E o Ace, o grande Ace, estava bebaço e trôpego no palco, parecia que o cara iria desabar a qualquer momento, o que para mim foi muito triste, e os olhares temerosos e repletos de ódio que Gene e Paul endereçavam a ele durante o set eram evidentes. Sem contar que o Rammstein, que abriu o show, engoliu o KISS…O Spaceman foi um grande e influente guitarrista e merecia muito mais respeito e reconhecimento do que tem. Obrigado Ace, vou reler agora sua excelente e desencanada autobiografia Não Me Arrependo, ouvir de novo e de novo os discos Dressed to Kill, Rock´n´Roll Over, Ace Frehley e Frehley´s Comet e que você descanse em paz!!!
E por sorte Gene Simmons não foi desta pra melhor,ele adormeceu ao volante e o carro dele capotou.
Fato.